Muitas mulheres passam a infância e a adolescência ouvindo que são “preguiçosas”, “desorganizadas” ou “distraídas”, sem imaginar que, por trás dessas dificuldades, pode existir o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Diferente do que se acreditava há alguns anos, o TDAH não é um transtorno exclusivo da infância e também não se manifesta da mesma forma em homens e mulheres. Por isso, muitas pacientes chegam ao consultório apenas na vida adulta, frequentemente após anos de sofrimento silencioso.
Nas mulheres, o TDAH costuma aparecer de maneira mais sutil. Em vez da hiperatividade evidente, predominam sintomas como desatenção, procrastinação, esquecimentos frequentes, dificuldade para organizar tarefas, sensação constante de sobrecarga mental e dificuldade em manter o foco.
Muitas aprendem, ao longo da vida, a mascarar os sintomas. Tornam-se excessivamente rígidas com a rotina, dependentes de listas, alarmes e agendas, tentando compensar uma dificuldade interna que nem sempre conseguem explicar. Algumas controlam excessivamente o ambiente, se cobram além do necessário e vivem em busca de um perfeccionismo que funciona quase como uma estratégia de sobrevivência, gerando grande sobrecarga e sofrimento.
Não é raro que essas mulheres recebam diagnósticos de ansiedade ou depressão antes que o TDAH seja reconhecido. E, muitas vezes, esses quadros realmente coexistem. Com o passar dos anos, o esforço constante para “dar conta de tudo” costuma vir acompanhado de exaustão emocional, baixa autoestima e uma sensação persistente de inadequação.
Algumas conseguem ter ótimo desempenho acadêmico e profissional, mas às custas de um desgaste importante. Outras enfrentam dificuldades nos relacionamentos, na maternidade, na organização da rotina e até no autocuidado. Muitas descrevem a mente como “ligada o tempo todo”: vários pensamentos acontecendo ao mesmo tempo, inúmeras tarefas iniciadas e dificuldade para concluir o que começaram.
Outro ponto importante é a influência hormonal. Períodos como TPM, pós-parto e menopausa podem intensificar sintomas como desatenção, irritabilidade e instabilidade emocional. Isso reforça a importância de um olhar cuidadoso e individualizado para a saúde mental da mulher.
Receber o diagnóstico na vida adulta costuma ser um momento de grande impacto emocional. Para muitas pacientes, existe um misto de alívio e tristeza: alívio por finalmente compreenderem a própria história, e tristeza pelos anos de cobranças, críticas e sofrimento sem explicação.
O diagnóstico não muda quem a pessoa é, mas permite que ela passe a olhar para si mesma com mais compreensão, menos culpa e mais possibilidade de cuidado.
